As duas Marias

Caros, conforme prometi, estou postando, hoje, o texto de um amigo.

Miro Cardoso é poeta, quadrinista e cronista. Escreve para O' AVESSO, jornal publicado mensalmente em Ourinhos.

Além de talentoso é o amigo com quem discuto todo o meu trabalho artístico. Foi meu professor de Inglês no ginásio e é um dos poucos que ainda escrevem cartas, somente pelo prazer de passar a língua no selo, como ele mesmo diz.

Acho este texto primoroso.

Encantem-se.

As duas Marias

imagem: reprodução

Miro Cardoso

Na puberdade, conheci duas Marias: Quitéria e Natalina. Ambas, concorrentes profissionais, desfilavam em calçadas opostas de uma mesma avenida. Enquanto uma subia, a outra descia perfumando as várias esquinas.

Nunca se soube de qualquer documento que revelasse a origem ou a idade das duas beldades. Não tinham sobrenomes, só alcunhas: “Carro Alegórico” e “Árvore de Natal”.

Solteironas por convicção, vaidosas e com semelhantes objetivos viviam de bicos, brindes, doações e presentes.

Nas proximidades da passarela que pleiteavam dias, noites e madrugadas, de um lado morava Quitéria e do outro Natalina. O lar de cada uma delas resumia-se num quarto e banheiro. A sala era a cidade; a cozinha uma cantina; a copa um botequim; o corredor uma rua; o quintal uma praça; a garagem um meio-fio e na área-de-serviço... só prazer.

A vida cobrava-lhes simpatias e sorrisos constantes. Nunca podiam estar tristes, por isso cantarolavam Dalva e Lana para confortar os males.

Sem computadores, elas passavam horas e horas diante dos espelhos orlados de fotos e bilhetes – os facebooks e e-mails da época. E os seus celulares? Eram as escovas de cabelo.

As felizes eram livres, pois não dependiam de planejamentos, pontos, conselhos, diários e justificativas de suas ausências ou das reprovações de seus clientes.

As duas Marias sempre protegidas por bons cremes, ousadas tinturas, transparentes tecidos, balangandãs e saltos-altos tiveram vida longa. Sobreviveram mesmo sob soslaios olhares das fêmeas e cobiçados cortejos dos machos.

Embora imortais, a primeira Maria morreu em pleno Carnaval e foi enterrada na Quarta-feira de Cinzas. A seu pedido, no velório não havia flores ou coroas. Aliás, ela odiava coroas.

Cobriam a maquiadíssima defunta: cravejados óculos gatinho, berloques, brincos, bijuterias, bolsas, cintos, lenços e tiaras. Nos ombros as alças finas do vestido amarelo-ouro, nos braços braceletes, nos pulsos relógios com a hora marcada, nos dedos toda sorte de anéis e unhas de causar inveja. Nos pés as tiras douradas das sandálias.

Purpurinas, confetes e serpentinas salpicavam o ambiente do teto ao chão. E assim, Quitéria, ao som de marchinhas seguiu pro céu cheirando a lança-perfume.

Dez meses depois, durante a Missa do Galo, digo, da Galinha, morreu Maria Natalina. Nada de flores ou velas. Só fitas, bolas, laços, guirlandas e pisca-piscas decoravam o caixão verde-pinhal.

A falecida harmonizava-se nos tons rubros e neves do casquete, véu, bustiê, mini-saia, meias arrastão, sombrinha e sapatilhas. Entre as mãos, a boceta de rapé e o porta-jóias de cristal. Tudo subiu aos céus ao som de Jingle Bells e cheirando a leitoa assada.

Quando dizem que não se leva nada dessa vida... Discordo! Maria Quitéria e Maria Natalina levaram tudo que amaram, inclusive meu coração.


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